- Até lá, riamos!
Gritou da popa o velho marinheiro. Ele tinha a pele carcomida pelo sol e pelo sal de toda uma vida no mar. Nos últimos quinze dias a calmaria havia fustigado aquele barco. Agora a tempestade esmagava com o peso das águas a pequena fragata que carregava sua apática carga de homens.
A gargalhada desdentada ecoava acima do rugido das ondas. O velho despreza qualquer terror, qualquer medo. Mas com sua risada violenta, seus companheiros de infortúnio tremiam, recitavam suas orações, olhavam para o céu negro e alguns até misturavam lágrimas de medo com a água da chuva sem saber.
O timoneiro mantinha o leme no curso. Seu esforço era evidente pelas veias saltadas do braço, grandes e azuis, o sangue parecia querer rebentar delas.
- Nada a fazer, nada a fazer. Gemia o capitão, um homem até então arrogante e cruel com seus comandados, agora percebia-se que algo quebrara dentro dele, algo que, escondido por suas promoções, sua origem abastada e sua confiança infantil, havia permanecido escondido por toda sua vida. Era a sua mortalidade que agarrava com garras ossudas seu coração.
O barco parecia rodopiar no oceano Índico. Ali, em meio ao mais puro caos, não importavam mais as medições humanas, as técnicas aprendidas na academia, mesmo experiêcias anteriores não tinham mais significado. Aquele pequeno mundo que era o barco, enfrentava agora o seu dilúvio.
Quantas horas foram jogados de um lado para o outro naquele terror não saberiam dizer. O que de certo podemos saber é dos farrapos humanos que foram encontrados por um cargueiro chinês em um barco arrebentado e à deriva. Nos corpos esfaimados dos marinheiros, as marcas e cicatrizes da luta que enfrentaram. Estavam alquebrados e quase desfalecidos, apenas um dentre eles permanecia com o olhar forte.
Prescrutando a imensidão azul, o rosto crivado pela dor, pela fragilidade, o capitão da fragata apertava os punhos. Ao sobreviver ao horror dos últimos dias sabia que algo havia naufragado dentro de si. Já não tinha dentro de si a juventude de sua arrogância, esta havia morrido, agora restara apenas a têmpera de sua maturidade.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
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