Mentiu naquele dia pela primeira vez em um relacionamento de doze anos. Na verdade, já vinha dissimulando seus atos há pelo menos um mês.
Começou tudo em um jantar da empresa, sempre foi controlado e adorava manter a pureza de seu casamento em meio aos colegas que ou eram solteirões descompromissados ou casados que habituaram-se a trair suas parceiras sem culpa. No jantar em questão, bebeu mais do que o normal e já que a loira do outro lado da mesa insistia em lançar olhares para ele, resolveu sentar-se ao lado dela.
Suas pernas o impressionaram, seja pela falta de hábito de olhar para pernas alheias as da sua mulher, seja pelo curto vestido que as deixava impressionantes aos olhos masculinos. Nem soube direito o que disse, apenas prestava atenção aos lábios que exalavam um cheiro de vinho tinto que contribui mais ainda para o seu estado de embriaguez.
Passou o último mês embriagado e mergulhado em pequenos esquemas que o levavam a perder os jantares e a tediosa conversa matrimonial.
A mentira que tomou corpo naquele dia foi, como toda mentira em um casamento, um ato falho, uma desculpa que não deu certo, um atraso não explicado. Balbuciou que havia ido a um jogo de pôquer na casa de amigos, mas a verdade estava estampada em seu olhar culpado.
O mundo que construiu desmoronou quando sua esposa, com um olhar de tristeza que ele nunca havia visto antes, nem na morte da avó dela, simplesmente mostrou as últimas ligações do celular dele. Havia, tolamente, esquecido o celular em casa e como é óbvio, todas as mensagens eram das pernas embriagantes.
Sua esposa não fez nenhuma cena de suicídio, nem ameaçou arremessar seus discos pela janela. Apenas ficou encarando-o longamente, esperando que seu ódio alimentasse, penetrasse o coração do marido até a culpa queimar nele. Ela queima até hoje.
Não sabemos até agora o fim deste relacionamente, afinal, nenhum relacionamento realmente termina, ele fica assombrando, preenchendo, surgindo nos momentos mais estranhos durante toda a vida. Seja através de velhos amigos que sempre perguntam o que aconteceu, seja com o encontro deprimente com algum parente. Se há algo que sabemos é que a culpa mantém seu aguilhão no peito dele desde então.
domingo, 8 de fevereiro de 2009
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