segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Prece a um amigo

Foi num dia de Janeiro. Aventuramo-nos na serra que separa nossa cidade da cidade praieira e poluída que é visitada todo verão pelos estressados cidadãos em procura de motivos diferentes para manterem-se a reclamar da vida.

Fomos até lá de trem, na época os trens eram fantasmagóricos, sujos e quebrados, mas nós éramos quatro caras que já haviam atravessado a cidade de madrugada e não era um simples e temerário trem que afastaria-nos de nosso objetivo.

Este era dos mais simples, apenas passar um dia no mato, no meio da natureza. Na verdade, pensando bem no assunto, não tinhamos nada em mente, apenas a vontade de fazer algo diferente. Portanto, municiados com uma garrafa de pinga e de um pacote de broa de milho, seguimos para o mato.

Descemos em uma parada isolada, apenas um casebre velho que servia como bar e que vendia de tudo um pouco. A cachaça e broa compramos lá, mas se quisessemos podiamos ter comprado ovos, linguiça e até alguma galinha para matar depois. Mas o que tínhamos era suficiente. Obviamente o que tínhamos não era nada ideal para os padrões modernosde aventureiros, estávamos vestidos com nossas roupas comuns: calças e casacos jeans, camiseta e tênis. E nossa provisão inusitada.

Seguimos por um terreno plano, marcado por altas torres de tensão que com sua arquitetura iam ao infinito, levando energia e civilização para as pessoas. Nós, naquele dia, fugíamos disso.

Logo entramos em uma parte mais fechada da mata e depois de andar por mais ou menos uma hora encontramos um rio. Zeno, um skinhead que já tinha uma vez ameaçado me espancar em uma noite de bebedeira, conhecia a região. Afinal, passara um mês por ali, escondido da polícia por razões que desconheço até hoje. Portanto, sendo conhecedor profundo daquele lugar, orientou nossa expedição mambembe.

"Seguindo o rio, iremos encontrar as cachoeiras." Disse após dar um gole na cachaça e me passar a garrafa.

O dia estava quente e seguíamos pelo rio, ora andando dentro da água refrescante, ora caminhando à margem. Aqui e ali, sinais de acampamentos abandonados, isto é, garrafas e latas deixadas para trás, maços de cigarro vazios e até uma bóia de pneu de trator furada estava por ali.

Foi quando chegamos ao vale. Uma série de cachoeiras formavam um lago a uns quinhentos metros abaixo, o rio que seguiamos era uma dessas cachoeiras, mas pequena. Na nossa diagonal, à direita havia outra, imensa e bela, ladeada por um morro, mesmo do ponto em que estávamos, o barulho das águas caindo era cristalino, forte.

Descemos até o lago e ficamos por ali, a bebericar nossa aguardente e olhar para o céu azul e a água clara que corria.

Foi então que Tabba, um outro colega, encarou o morro com seu olhar desafiador, olhou para nós com os olhos flamejantes e disparou o desafio.

"Vamos subir essa porra!"

Em um primeiro instante nos entreolhamos, mas a juventude e o álcool fizeram sua parte. Todos queriam desafiar o morro imponente.

Começamos a subida. Na frente Zeno, logo abaixo dele, Tabba, eu era o terceiro e Chupisco estava logo atrás de mim. Nos primeiros momentos da subida percebi, graças aos pedregulhos e a areia que caia em minha cabeça, que a terra do morro era muito arenosa e que todo ponto de apoio utilizado pelos dois acima de mim, era logo desintegrado por suas mãos ou pés. Chupisco, que era o último, percebeu que para ele a dificuldade seria maior, e gritou abaixo de mim.

"Cês tão doido, eu vou ficar aqui embaixo, vou subir isso aí, não!"

Eu nem olhei para trás, estava preocupado com a quantidade de terra que caia e percebia que a cada metro que subíamos o caminho ficava mais difícil. Não havia como utilizar os mesmos apoios, pois uma vez usados, eles já não existiam. Portanto, continuar seguindo os dois só iria me deixar em apuros.

A cada metro subido, os apoios diminuiam, cheguei em um ponto em que não tinha mais como apoiar a subida.

Foi quando decidi mudar o meu trajeto. Subíamos pela esquerda do morro, que era a parte mais arenosa, a minha direita, o terreno tinha mais mato e algumas raízes que comecei a usar para manter-me preso ao morro, já havíamos subido um bom pedaço e agora não tinha volta, era subir ou subir, descer era simplesmente impossível.

Fui pelo meu novo trajeto e já não mais via os dois que iniciaram a subida. Agora, não havia ninguém. Apenas eu, as raízes e a terra do morro entrando em meus olhos e boca.

Ali, sozinho, percebi que minha vida podia terminar, esborrachada nas pedras vermelhas abaixo.

Ali, sozinho, percebi que a única coisa que me manteria vivo era a capacidade de entender o que meu corpo agarrava, pois agora não apenas minhas mãos e pés mantinham-me preso ao morro, mas sentia meu peito, minhas coxas, minha barriga, todo meu corpo estava preso aquele morro, como um amante à sua amada, como um filho agarrado à mãe. Aquele morro era o que exisitia para mim naquele momento. Sem ele, eu era apenas um corpo caindo para o vazio.

Subi mais alguns metros e atingi a parte do morro em que já podia ficar realtivamente de pé, o terreno já não era de pedra e areia, era um matagal de três metros de altura. Havia o que agarrar agora, sem medo de cair, mas a densidade do mato era tamanha que a única forma de atravessar era me jogando em cima do mato para conseguir seguir em frente. Isso durou horas. O mato era cortante, e minhas mãos estavam com pequenos ferimentos causados pelo fio das folhas. Eu suava e sufocava. Sentia que o álcool já abandonara meu corpo e a força que fazia e a adrenalina me faziam gargalhar.

De repente, estava no topo. Fora o primeiro a chegar. Sozinho o sol me recebeu. Sozinho o ar puro encheu meus pulmões. Abri os braços e gritei. Gritei como nunca gritara antes e nunca mais gritei daquela forma.

Êxtase!

Gritei por estar vivo. Por sentir-me vivo! Por ter sido poupado por aqueles deuses primevos que habitam a natureza selvagem.

Logo depois meus dois companheiros de subida chegaram, nos abraçamos e comemoramos nosso dia, nossa conquista, nosso destemor infantil.

Descemos o morro pela cachoeira grande e a chuva chegou junto. Terminamos o dia voltando para casa, cheios de lama, molhados, bêbados e felizes.

Muito tempo passou depois deste dia. Zeno foi preso e nunca mais o vi. Tabba se matou. Um dia pulou de uma ponte aqui perto de casa e seu corpo foi encontrado dois dias depois. Chupisco desapareceu na vida.

Eu sobrevivi.

E devo isso ao Tabba, que na subida de volta, pela cachoeira pequena, eu, meio bêbado, dei um passo em falso, meu pé esquerdo flutou no abismo e só senti a mão dele puxando-me pelo casaco jeans, arrastando-me da queda. Esse cara salvou minha vida.

Portanto, devo essa história a ele. Que sua alma encontre a paz que não teve na vida.

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