A última conversa com seu pai foi pelo telefone.
O tempo passara por dez anos e desde então não via seu pai. Apenas contatos esparsos.
Agora conversavam pela última vez, mas não sabiam disso.
O rancor da adolescência, que perdurou por boa parte de sua entrada na vida adulta, havia dissipado-se no coração do filho. Apenas queria dizer ao pai que aquela era sua vida, que aquelas eram suas escolhas e que era agradecido por tudo que, por mais dolorido que tenha sido, aprendera e vivera nos poucos anos juntos.
Como se soubesse que aquela era a última vez, seu pai demonstrou pela primeira vez compreensão, carinho e respeito pelas decisões do filho. Mesmo sabendo em seu peito que aquelas escolhas ainda cobrariam um preço alto na vida do seu garoto.
Despediram-se com cuidado, prometendo uma viagem, um encontro, uma cerveja e um cigarro juntos. Quem sabe, até ouvir alguns velhos discos. Desejavam e falavam um para o outro do encontro que nunca aconteceria, à beira-mar, ouvindo o som das ondas quebrando.
Poucos dias depois dessa conversa, enquanto assumia seu novo posto no emprego, um telefonema acabou com o encontro no porvir. Uma voz, que a princípio julgou ser de seu pai, disse-lhe que este morrera. Achou que fosse uma piada em um primeiro momento (nunca acreditamos nisso, é de nossa natureza, acho) mas no segundo seguinte a garganta fechou e as lágrimas brotaram de seus olhos, soluçou sua dor e largou o telefone nas mãos de um colega. Sentiu as pernas e o peito fraquejarem e foi abraçado por um amigo. Nada mais a dizer ao seu pai. Apenas lágrimas.
No enterro, afastou-se da família que não via há muito tempo e sentou debaixo de um toldo, chorando copiosamente. Lembrou então das palavras de sua mãe que dizia que seu pai, quando nasceu o filho, chorou como uma criança.
Agora era ele quem chorava. Não pela vida, como seu pai, mas pelo tempo que perdeu sendo menos que um filho.
Há dores que o tempo não cura, há cicatrizes que coçam toda vez que a solidão abraça nosso frágil corpo.
terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
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