segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Um fim

Cuspiu catarro e sangue naquele dia morno. O sol brilhava, uma leve brisa outonal entrava pela janela do banheiro.

Suas mãos apertavam a borda da pia, levantou o rosto, estava pálido. O peito ardia ferozmente, tentou aspirar o ar fresco da manhã mas não conseguiu. Sentou na privada e ficou olhando para suas mãos que tremiam. Levantou-se, tomou seu banho, vestiu-se e foi trabalhar.

Não procurou um médico, não precisava de diagnóstico ou de recomendações. O que havia em seus pulmões era o descaso de toda uma vida, uma vida sem razões maiores ou grandes paixões.

Não entrou em desespero, não deixou-se levar pela depressão, apenas seguia seus dias tossindo sangue e catarro.

Saber que caminhava para o fim não o incomodava, apenas não queria que sentissem pena dele, portanto, não avisou ninguém da sua família ou aos colegas do trabalho. Suas irmãs nada saberiam, seus pais nada perceberiam.

Um dia a tosse foi mais forte, mais dolorida, algo sólido subiu por sua garganta e grudou na parede da pia. Percebeu, como se percebe a picada de um mosquito, que era um pedaço de seu pulmão que cuspira. Foi então que decidiu pedir demissão do emprego.

Não escreveu nenhuma carta, não deixou nenhum recado. Sabia que iria morrer em breve e não queria estar próximo de ninguém que o pudesse confortar.

Vendeu tudo que havia em sua casa: carro, a T.V., seus livros, seus móveis. O que não conseguiu vender, deixou na rua para que fosse levado pelos catadores de lixo.

Viajou e foi morrer junto ao mar. Em suas mãos havia apenas um terço de madeira.

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