domingo, 8 de fevereiro de 2009

Um cinzeiro

"Um cinzeiro cheio é um estudo de pessimismo" - pensou enquanto erguia-se para esvaziar o objeto de sua contemplação.

Passara o dia a fumar, sem saborear o gosto do tabaco, apenas para sentir que fazia alguma coisa para preencher as horas. Às vezes, ia até a janela observar o movimento das pessoas que entretinham-se com seus cachorros. O sol estava fabulosamente quente, o que era uma desculpa para não sair de casa. "Não, está quente demais para ir a algum lugar"

O dia acabou. O telefone, fora do gancho desde a noite anterior, não era necessário, afinal, mantinha à sua volta um fosso de indiferença para com as pessoas que era veementemente respeitado. Por ele mesmo, principalmente.

Esvaziou o cinzeiro com indiferença e voltou para o escritório já acendendo outro cigarro. Sentou na poltrona velha e marrom, arranhada por um gato que há muito tempo não fazia mais parte de sua vida. Em cima da escrivaninha depositou o objeto de vidro que servia para depositar seu pessimismo, vários livros empilhados faziam da operação um exercício de logística e equilibrio. Livros novos, marcados, meio lidos ou sequer abertos que eram motivo de um tênue e raso orgulho.

Ouviu ao longe o choro de uma criança, aquilo o incomodou. Olhou para fora da janela e tentou identificar de onde vinha, mas não saberia dizer de qual das casas na rua saia o som que o fazia lembrar de seus sonhos abandonados.

As horas, inexoráveis, seguiam seu curso. A madrugada avançava. "Dormir agora, amanhã mais um dia", balbuciou essas palavras enquanto abria o vidro onde guardava suas pílulas para dormir, pegou um copo com água e engoliu duas. Sentou-se na beira da cama esperando que a quimíca fizesse efeito em seu corpo. Esperou. Acendeu seu último cigarro, o que fez com que sentisse um frio na espinha. "Droga, devia ter comprado um maço antes de vir para casa" . Foi então que percebeu que o pessimismo alojara-se em seu peito e não conseguiu dormir.

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