Cuspiu catarro e sangue naquele dia morno. O sol brilhava, uma leve brisa outonal entrava pela janela do banheiro.
Suas mãos apertavam a borda da pia, levantou o rosto, estava pálido. O peito ardia ferozmente, tentou aspirar o ar fresco da manhã mas não conseguiu. Sentou na privada e ficou olhando para suas mãos que tremiam. Levantou-se, tomou seu banho, vestiu-se e foi trabalhar.
Não procurou um médico, não precisava de diagnóstico ou de recomendações. O que havia em seus pulmões era o descaso de toda uma vida, uma vida sem razões maiores ou grandes paixões.
Não entrou em desespero, não deixou-se levar pela depressão, apenas seguia seus dias tossindo sangue e catarro.
Saber que caminhava para o fim não o incomodava, apenas não queria que sentissem pena dele, portanto, não avisou ninguém da sua família ou aos colegas do trabalho. Suas irmãs nada saberiam, seus pais nada perceberiam.
Um dia a tosse foi mais forte, mais dolorida, algo sólido subiu por sua garganta e grudou na parede da pia. Percebeu, como se percebe a picada de um mosquito, que era um pedaço de seu pulmão que cuspira. Foi então que decidiu pedir demissão do emprego.
Não escreveu nenhuma carta, não deixou nenhum recado. Sabia que iria morrer em breve e não queria estar próximo de ninguém que o pudesse confortar.
Vendeu tudo que havia em sua casa: carro, a T.V., seus livros, seus móveis. O que não conseguiu vender, deixou na rua para que fosse levado pelos catadores de lixo.
Viajou e foi morrer junto ao mar. Em suas mãos havia apenas um terço de madeira.
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
A Graça
Estou consumido pelos meus vícios. Sinto meu espírito partir-se, estilhaços que já não consigo juntar.
Estilhaços que cortam minha pele de dentro para fora. Falta ar em meus pulmões corrompidos pela fumaça dos cigarros que fumo sem contar.
Livrai-me do Mal que habita meu peito, uma prece sem efeito hoje, sem redenção para mim.
A dor em minhas costas encurvadas, o amargor de esperar por você, sabendo que não virá. Espero que a noite passe lentamente, o calor é insuportável, não há vento, nem as hélices do velho ventilador branco conseguem romper este ar modorrento.
Se tive sonhos em minha juventude, já não consigo lembrar-me deles. Foram-se. São menos que cinzas ao vento. Nas poucas horas que o sono me abriga, não há repouso, não há descanso, apenas o entorpecimento que abre meus olhos ao despertar é presente e intenso.
Abandono toda esperança, todo desejo. Minto, o desejar está presente, mas conspurcado, poluído por meus vícios e por minha intransigente solidão.
Mas a esperança por dias melhores se foi. Invento simulacros de uma vida ainda por viver, mas engano a quem com isso?
Não. Minha grande resposta para a vida sempre foi esse covarde negar. Este covarde e egoísta medo.
Ah! Escreverei sobre o pior que há em mim. Para purgar meu demônio, para exorcizá-lo da única forma que sei; encarando-me no espelho e desafiando o abismo.
Este abismo que tanto atrai, que com sua força a tentar-me todo dia, há de derrotar-me apenas quando minha voz silenciar, quando meu corpo abandonar sua razão, quando meus impulsos mostrarem-se fracos.
Acordar todo dia, as linhas em meu rosto aprofundam-se e assim percebo que mais um dia vivo é mais um dia em que a Graça está à minha espera.
Deus está sempre à nossa espera.
Estilhaços que cortam minha pele de dentro para fora. Falta ar em meus pulmões corrompidos pela fumaça dos cigarros que fumo sem contar.
Livrai-me do Mal que habita meu peito, uma prece sem efeito hoje, sem redenção para mim.
A dor em minhas costas encurvadas, o amargor de esperar por você, sabendo que não virá. Espero que a noite passe lentamente, o calor é insuportável, não há vento, nem as hélices do velho ventilador branco conseguem romper este ar modorrento.
Se tive sonhos em minha juventude, já não consigo lembrar-me deles. Foram-se. São menos que cinzas ao vento. Nas poucas horas que o sono me abriga, não há repouso, não há descanso, apenas o entorpecimento que abre meus olhos ao despertar é presente e intenso.
Abandono toda esperança, todo desejo. Minto, o desejar está presente, mas conspurcado, poluído por meus vícios e por minha intransigente solidão.
Mas a esperança por dias melhores se foi. Invento simulacros de uma vida ainda por viver, mas engano a quem com isso?
Não. Minha grande resposta para a vida sempre foi esse covarde negar. Este covarde e egoísta medo.
Ah! Escreverei sobre o pior que há em mim. Para purgar meu demônio, para exorcizá-lo da única forma que sei; encarando-me no espelho e desafiando o abismo.
Este abismo que tanto atrai, que com sua força a tentar-me todo dia, há de derrotar-me apenas quando minha voz silenciar, quando meu corpo abandonar sua razão, quando meus impulsos mostrarem-se fracos.
Acordar todo dia, as linhas em meu rosto aprofundam-se e assim percebo que mais um dia vivo é mais um dia em que a Graça está à minha espera.
Deus está sempre à nossa espera.
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
Sonhar
Foi apenas alguns dias após seu trigésimo quinto aniversário, acordou de um pesadelo.
"Quem são? Quem morreu?" - pensou, ainda com o coração a rebentar-lhe o peito. " Um acidente de carro?"
Buscou pelo copo d'água que passara a deixar ao lado da cama, hábito que tinha desde que começou seu namoro com Cristina. Fazia oito meses que estavam juntos e ela agora dormia pesadamente ao seu lado, protegida da corrente de ar gélido que passava pelo vão da janela por um cobertor xadrez, azul e preto.
Estava de costas para ele, os cabelos castanhos, longos. Ela tremeu por alguns segundos. Seu corpo ficou retesado.Ternamente ele a abraçou. Um abraço silencioso, sentiu-se como se há muito tempo não fizesse isso, sentiu a pele dela tocar a sua, um encontro que sabia ser, naquele momento, o seu ato mais amoroso. Seu toque despertou-a levemente da tensão e com um resmungo delicado virou o rosto, mergulhando em seu peito protetor.
Abraçados, voltaram a dormir. Protegidos do frio pelo calor de seus corpos, afastaram-se dos sonhos inconscientes e mesquinhos. Estavam juntos pela primeira vez.
"Quem são? Quem morreu?" - pensou, ainda com o coração a rebentar-lhe o peito. " Um acidente de carro?"
Buscou pelo copo d'água que passara a deixar ao lado da cama, hábito que tinha desde que começou seu namoro com Cristina. Fazia oito meses que estavam juntos e ela agora dormia pesadamente ao seu lado, protegida da corrente de ar gélido que passava pelo vão da janela por um cobertor xadrez, azul e preto.
Estava de costas para ele, os cabelos castanhos, longos. Ela tremeu por alguns segundos. Seu corpo ficou retesado.Ternamente ele a abraçou. Um abraço silencioso, sentiu-se como se há muito tempo não fizesse isso, sentiu a pele dela tocar a sua, um encontro que sabia ser, naquele momento, o seu ato mais amoroso. Seu toque despertou-a levemente da tensão e com um resmungo delicado virou o rosto, mergulhando em seu peito protetor.
Abraçados, voltaram a dormir. Protegidos do frio pelo calor de seus corpos, afastaram-se dos sonhos inconscientes e mesquinhos. Estavam juntos pela primeira vez.
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
Prece a um amigo
Foi num dia de Janeiro. Aventuramo-nos na serra que separa nossa cidade da cidade praieira e poluída que é visitada todo verão pelos estressados cidadãos em procura de motivos diferentes para manterem-se a reclamar da vida.
Fomos até lá de trem, na época os trens eram fantasmagóricos, sujos e quebrados, mas nós éramos quatro caras que já haviam atravessado a cidade de madrugada e não era um simples e temerário trem que afastaria-nos de nosso objetivo.
Este era dos mais simples, apenas passar um dia no mato, no meio da natureza. Na verdade, pensando bem no assunto, não tinhamos nada em mente, apenas a vontade de fazer algo diferente. Portanto, municiados com uma garrafa de pinga e de um pacote de broa de milho, seguimos para o mato.
Descemos em uma parada isolada, apenas um casebre velho que servia como bar e que vendia de tudo um pouco. A cachaça e broa compramos lá, mas se quisessemos podiamos ter comprado ovos, linguiça e até alguma galinha para matar depois. Mas o que tínhamos era suficiente. Obviamente o que tínhamos não era nada ideal para os padrões modernosde aventureiros, estávamos vestidos com nossas roupas comuns: calças e casacos jeans, camiseta e tênis. E nossa provisão inusitada.
Seguimos por um terreno plano, marcado por altas torres de tensão que com sua arquitetura iam ao infinito, levando energia e civilização para as pessoas. Nós, naquele dia, fugíamos disso.
Logo entramos em uma parte mais fechada da mata e depois de andar por mais ou menos uma hora encontramos um rio. Zeno, um skinhead que já tinha uma vez ameaçado me espancar em uma noite de bebedeira, conhecia a região. Afinal, passara um mês por ali, escondido da polícia por razões que desconheço até hoje. Portanto, sendo conhecedor profundo daquele lugar, orientou nossa expedição mambembe.
"Seguindo o rio, iremos encontrar as cachoeiras." Disse após dar um gole na cachaça e me passar a garrafa.
O dia estava quente e seguíamos pelo rio, ora andando dentro da água refrescante, ora caminhando à margem. Aqui e ali, sinais de acampamentos abandonados, isto é, garrafas e latas deixadas para trás, maços de cigarro vazios e até uma bóia de pneu de trator furada estava por ali.
Foi quando chegamos ao vale. Uma série de cachoeiras formavam um lago a uns quinhentos metros abaixo, o rio que seguiamos era uma dessas cachoeiras, mas pequena. Na nossa diagonal, à direita havia outra, imensa e bela, ladeada por um morro, mesmo do ponto em que estávamos, o barulho das águas caindo era cristalino, forte.
Descemos até o lago e ficamos por ali, a bebericar nossa aguardente e olhar para o céu azul e a água clara que corria.
Foi então que Tabba, um outro colega, encarou o morro com seu olhar desafiador, olhou para nós com os olhos flamejantes e disparou o desafio.
"Vamos subir essa porra!"
Em um primeiro instante nos entreolhamos, mas a juventude e o álcool fizeram sua parte. Todos queriam desafiar o morro imponente.
Começamos a subida. Na frente Zeno, logo abaixo dele, Tabba, eu era o terceiro e Chupisco estava logo atrás de mim. Nos primeiros momentos da subida percebi, graças aos pedregulhos e a areia que caia em minha cabeça, que a terra do morro era muito arenosa e que todo ponto de apoio utilizado pelos dois acima de mim, era logo desintegrado por suas mãos ou pés. Chupisco, que era o último, percebeu que para ele a dificuldade seria maior, e gritou abaixo de mim.
"Cês tão doido, eu vou ficar aqui embaixo, vou subir isso aí, não!"
Eu nem olhei para trás, estava preocupado com a quantidade de terra que caia e percebia que a cada metro que subíamos o caminho ficava mais difícil. Não havia como utilizar os mesmos apoios, pois uma vez usados, eles já não existiam. Portanto, continuar seguindo os dois só iria me deixar em apuros.
A cada metro subido, os apoios diminuiam, cheguei em um ponto em que não tinha mais como apoiar a subida.
Foi quando decidi mudar o meu trajeto. Subíamos pela esquerda do morro, que era a parte mais arenosa, a minha direita, o terreno tinha mais mato e algumas raízes que comecei a usar para manter-me preso ao morro, já havíamos subido um bom pedaço e agora não tinha volta, era subir ou subir, descer era simplesmente impossível.
Fui pelo meu novo trajeto e já não mais via os dois que iniciaram a subida. Agora, não havia ninguém. Apenas eu, as raízes e a terra do morro entrando em meus olhos e boca.
Ali, sozinho, percebi que minha vida podia terminar, esborrachada nas pedras vermelhas abaixo.
Ali, sozinho, percebi que a única coisa que me manteria vivo era a capacidade de entender o que meu corpo agarrava, pois agora não apenas minhas mãos e pés mantinham-me preso ao morro, mas sentia meu peito, minhas coxas, minha barriga, todo meu corpo estava preso aquele morro, como um amante à sua amada, como um filho agarrado à mãe. Aquele morro era o que exisitia para mim naquele momento. Sem ele, eu era apenas um corpo caindo para o vazio.
Subi mais alguns metros e atingi a parte do morro em que já podia ficar realtivamente de pé, o terreno já não era de pedra e areia, era um matagal de três metros de altura. Havia o que agarrar agora, sem medo de cair, mas a densidade do mato era tamanha que a única forma de atravessar era me jogando em cima do mato para conseguir seguir em frente. Isso durou horas. O mato era cortante, e minhas mãos estavam com pequenos ferimentos causados pelo fio das folhas. Eu suava e sufocava. Sentia que o álcool já abandonara meu corpo e a força que fazia e a adrenalina me faziam gargalhar.
De repente, estava no topo. Fora o primeiro a chegar. Sozinho o sol me recebeu. Sozinho o ar puro encheu meus pulmões. Abri os braços e gritei. Gritei como nunca gritara antes e nunca mais gritei daquela forma.
Êxtase!
Gritei por estar vivo. Por sentir-me vivo! Por ter sido poupado por aqueles deuses primevos que habitam a natureza selvagem.
Logo depois meus dois companheiros de subida chegaram, nos abraçamos e comemoramos nosso dia, nossa conquista, nosso destemor infantil.
Descemos o morro pela cachoeira grande e a chuva chegou junto. Terminamos o dia voltando para casa, cheios de lama, molhados, bêbados e felizes.
Muito tempo passou depois deste dia. Zeno foi preso e nunca mais o vi. Tabba se matou. Um dia pulou de uma ponte aqui perto de casa e seu corpo foi encontrado dois dias depois. Chupisco desapareceu na vida.
Eu sobrevivi.
E devo isso ao Tabba, que na subida de volta, pela cachoeira pequena, eu, meio bêbado, dei um passo em falso, meu pé esquerdo flutou no abismo e só senti a mão dele puxando-me pelo casaco jeans, arrastando-me da queda. Esse cara salvou minha vida.
Portanto, devo essa história a ele. Que sua alma encontre a paz que não teve na vida.
Fomos até lá de trem, na época os trens eram fantasmagóricos, sujos e quebrados, mas nós éramos quatro caras que já haviam atravessado a cidade de madrugada e não era um simples e temerário trem que afastaria-nos de nosso objetivo.
Este era dos mais simples, apenas passar um dia no mato, no meio da natureza. Na verdade, pensando bem no assunto, não tinhamos nada em mente, apenas a vontade de fazer algo diferente. Portanto, municiados com uma garrafa de pinga e de um pacote de broa de milho, seguimos para o mato.
Descemos em uma parada isolada, apenas um casebre velho que servia como bar e que vendia de tudo um pouco. A cachaça e broa compramos lá, mas se quisessemos podiamos ter comprado ovos, linguiça e até alguma galinha para matar depois. Mas o que tínhamos era suficiente. Obviamente o que tínhamos não era nada ideal para os padrões modernosde aventureiros, estávamos vestidos com nossas roupas comuns: calças e casacos jeans, camiseta e tênis. E nossa provisão inusitada.
Seguimos por um terreno plano, marcado por altas torres de tensão que com sua arquitetura iam ao infinito, levando energia e civilização para as pessoas. Nós, naquele dia, fugíamos disso.
Logo entramos em uma parte mais fechada da mata e depois de andar por mais ou menos uma hora encontramos um rio. Zeno, um skinhead que já tinha uma vez ameaçado me espancar em uma noite de bebedeira, conhecia a região. Afinal, passara um mês por ali, escondido da polícia por razões que desconheço até hoje. Portanto, sendo conhecedor profundo daquele lugar, orientou nossa expedição mambembe.
"Seguindo o rio, iremos encontrar as cachoeiras." Disse após dar um gole na cachaça e me passar a garrafa.
O dia estava quente e seguíamos pelo rio, ora andando dentro da água refrescante, ora caminhando à margem. Aqui e ali, sinais de acampamentos abandonados, isto é, garrafas e latas deixadas para trás, maços de cigarro vazios e até uma bóia de pneu de trator furada estava por ali.
Foi quando chegamos ao vale. Uma série de cachoeiras formavam um lago a uns quinhentos metros abaixo, o rio que seguiamos era uma dessas cachoeiras, mas pequena. Na nossa diagonal, à direita havia outra, imensa e bela, ladeada por um morro, mesmo do ponto em que estávamos, o barulho das águas caindo era cristalino, forte.
Descemos até o lago e ficamos por ali, a bebericar nossa aguardente e olhar para o céu azul e a água clara que corria.
Foi então que Tabba, um outro colega, encarou o morro com seu olhar desafiador, olhou para nós com os olhos flamejantes e disparou o desafio.
"Vamos subir essa porra!"
Em um primeiro instante nos entreolhamos, mas a juventude e o álcool fizeram sua parte. Todos queriam desafiar o morro imponente.
Começamos a subida. Na frente Zeno, logo abaixo dele, Tabba, eu era o terceiro e Chupisco estava logo atrás de mim. Nos primeiros momentos da subida percebi, graças aos pedregulhos e a areia que caia em minha cabeça, que a terra do morro era muito arenosa e que todo ponto de apoio utilizado pelos dois acima de mim, era logo desintegrado por suas mãos ou pés. Chupisco, que era o último, percebeu que para ele a dificuldade seria maior, e gritou abaixo de mim.
"Cês tão doido, eu vou ficar aqui embaixo, vou subir isso aí, não!"
Eu nem olhei para trás, estava preocupado com a quantidade de terra que caia e percebia que a cada metro que subíamos o caminho ficava mais difícil. Não havia como utilizar os mesmos apoios, pois uma vez usados, eles já não existiam. Portanto, continuar seguindo os dois só iria me deixar em apuros.
A cada metro subido, os apoios diminuiam, cheguei em um ponto em que não tinha mais como apoiar a subida.
Foi quando decidi mudar o meu trajeto. Subíamos pela esquerda do morro, que era a parte mais arenosa, a minha direita, o terreno tinha mais mato e algumas raízes que comecei a usar para manter-me preso ao morro, já havíamos subido um bom pedaço e agora não tinha volta, era subir ou subir, descer era simplesmente impossível.
Fui pelo meu novo trajeto e já não mais via os dois que iniciaram a subida. Agora, não havia ninguém. Apenas eu, as raízes e a terra do morro entrando em meus olhos e boca.
Ali, sozinho, percebi que minha vida podia terminar, esborrachada nas pedras vermelhas abaixo.
Ali, sozinho, percebi que a única coisa que me manteria vivo era a capacidade de entender o que meu corpo agarrava, pois agora não apenas minhas mãos e pés mantinham-me preso ao morro, mas sentia meu peito, minhas coxas, minha barriga, todo meu corpo estava preso aquele morro, como um amante à sua amada, como um filho agarrado à mãe. Aquele morro era o que exisitia para mim naquele momento. Sem ele, eu era apenas um corpo caindo para o vazio.
Subi mais alguns metros e atingi a parte do morro em que já podia ficar realtivamente de pé, o terreno já não era de pedra e areia, era um matagal de três metros de altura. Havia o que agarrar agora, sem medo de cair, mas a densidade do mato era tamanha que a única forma de atravessar era me jogando em cima do mato para conseguir seguir em frente. Isso durou horas. O mato era cortante, e minhas mãos estavam com pequenos ferimentos causados pelo fio das folhas. Eu suava e sufocava. Sentia que o álcool já abandonara meu corpo e a força que fazia e a adrenalina me faziam gargalhar.
De repente, estava no topo. Fora o primeiro a chegar. Sozinho o sol me recebeu. Sozinho o ar puro encheu meus pulmões. Abri os braços e gritei. Gritei como nunca gritara antes e nunca mais gritei daquela forma.
Êxtase!
Gritei por estar vivo. Por sentir-me vivo! Por ter sido poupado por aqueles deuses primevos que habitam a natureza selvagem.
Logo depois meus dois companheiros de subida chegaram, nos abraçamos e comemoramos nosso dia, nossa conquista, nosso destemor infantil.
Descemos o morro pela cachoeira grande e a chuva chegou junto. Terminamos o dia voltando para casa, cheios de lama, molhados, bêbados e felizes.
Muito tempo passou depois deste dia. Zeno foi preso e nunca mais o vi. Tabba se matou. Um dia pulou de uma ponte aqui perto de casa e seu corpo foi encontrado dois dias depois. Chupisco desapareceu na vida.
Eu sobrevivi.
E devo isso ao Tabba, que na subida de volta, pela cachoeira pequena, eu, meio bêbado, dei um passo em falso, meu pé esquerdo flutou no abismo e só senti a mão dele puxando-me pelo casaco jeans, arrastando-me da queda. Esse cara salvou minha vida.
Portanto, devo essa história a ele. Que sua alma encontre a paz que não teve na vida.
Argamassa e Tijolos
Há um muro a nos separar.
Será que não percebe que construímos esse muro? Mas por qual razão nos mantemos tão afastados, tão distantes?
Será que, como esses muros altos que protegem grandes mansões, não estamos apenas nos isolando da vida? Mas, diferente destes, que tem algo a temer, afinal a violência grassa em nossa cidade como deve saber. Mas e nós, o que tememos?
Tememos a nós mesmos? Tememos o desencontrar de nosso tempo e vida? O que protegemos deixando este muro a nos separar? Vidas incompletas, talvez.
Acordo todos os dias e treino um sorriso cínico no espelho pensando: "Não há de me incomodar este muro, não há de me fazer querer derruba-lo." Me convenço e saio para mais um dia de trabalho e simulações.
O tempo é a argamassa que vai fortalecendo este muro. Deixo que ele trabalhe e tento não mais pensar no que ele significa ou no que ele separa. Deixo que minha rotina seja preenchida de vazio e desesperança, apenas para encontrar um rosto envelhecido ao amanhecer.
Estou velho demais para isso.
Será que não percebe que construímos esse muro? Mas por qual razão nos mantemos tão afastados, tão distantes?
Será que, como esses muros altos que protegem grandes mansões, não estamos apenas nos isolando da vida? Mas, diferente destes, que tem algo a temer, afinal a violência grassa em nossa cidade como deve saber. Mas e nós, o que tememos?
Tememos a nós mesmos? Tememos o desencontrar de nosso tempo e vida? O que protegemos deixando este muro a nos separar? Vidas incompletas, talvez.
Acordo todos os dias e treino um sorriso cínico no espelho pensando: "Não há de me incomodar este muro, não há de me fazer querer derruba-lo." Me convenço e saio para mais um dia de trabalho e simulações.
O tempo é a argamassa que vai fortalecendo este muro. Deixo que ele trabalhe e tento não mais pensar no que ele significa ou no que ele separa. Deixo que minha rotina seja preenchida de vazio e desesperança, apenas para encontrar um rosto envelhecido ao amanhecer.
Estou velho demais para isso.
sábado, 14 de fevereiro de 2009
Sem querer
Ele estava com medo dela. Não era um temor natural, como tememos um cachorro bravo ou baratas voadoras, mas um medo ali dentro que o fazia sentir o coração bombear forte e sua face corar como um adolescente.
Soube que sentia isso ao cruzar o olhar e as palavras com ela, não da primeira vez, como em comédias românticas e irreais, mas após penetrar, quase sem querer, em um universo de dúvidas e lembranças, paixões e músicas, que derrubaram seu muro emocional.
Não era algo que esperava, nunca é, e apesar da experiência em outros relacionamentos, todo alquebrados, sentia esse temor de forma consistente, plena.
Disfarçava, em cada novo encontro fortuíto, seu medo com um misto de arrogância e cinísmo, uma forma desesperada de reerguer, de novamente encontrar sua proteção solitária. Às vezes não conseguia e sentia-se vulnerável, o que o deixava irritado consigo mesmo por não ser capaz de manter-se no controle, de deixar-se levar por aquele sorriso sincero e tímido que o comovia sem querer.
Passou os últimos dias a medir, a refletir, a equilibrar-se em motivos que o obrigava a racionalizar e afastar-se de alguma forma daquele medo. Dela.
Procurou silenciar sua vida de forma a não deixar mais que dali, nada se revelasse que pudesse comprometer o que mais importante encontrara nela. Sua amizade.
Pois sabia que, no final de tantos e desastrosos finais que dividiu em sua vida, o bem mais precioso perdido era aquele intangível e irrecuperável encontro que tão pouco acontece em nossas vidas.
E por conta disso, seguiu sua vida, sem mais permitir que seu empedernido coração voltasse a bater de forma descontrolada.
Soube que sentia isso ao cruzar o olhar e as palavras com ela, não da primeira vez, como em comédias românticas e irreais, mas após penetrar, quase sem querer, em um universo de dúvidas e lembranças, paixões e músicas, que derrubaram seu muro emocional.
Não era algo que esperava, nunca é, e apesar da experiência em outros relacionamentos, todo alquebrados, sentia esse temor de forma consistente, plena.
Disfarçava, em cada novo encontro fortuíto, seu medo com um misto de arrogância e cinísmo, uma forma desesperada de reerguer, de novamente encontrar sua proteção solitária. Às vezes não conseguia e sentia-se vulnerável, o que o deixava irritado consigo mesmo por não ser capaz de manter-se no controle, de deixar-se levar por aquele sorriso sincero e tímido que o comovia sem querer.
Passou os últimos dias a medir, a refletir, a equilibrar-se em motivos que o obrigava a racionalizar e afastar-se de alguma forma daquele medo. Dela.
Procurou silenciar sua vida de forma a não deixar mais que dali, nada se revelasse que pudesse comprometer o que mais importante encontrara nela. Sua amizade.
Pois sabia que, no final de tantos e desastrosos finais que dividiu em sua vida, o bem mais precioso perdido era aquele intangível e irrecuperável encontro que tão pouco acontece em nossas vidas.
E por conta disso, seguiu sua vida, sem mais permitir que seu empedernido coração voltasse a bater de forma descontrolada.
O Lutador
Qanto tempo até percebermos que já não há mais tempo? Quanto tempo a vida nos dá para tentarmos acertar o que passamos uma vida errando?
As marcas em seu corpo mostram o tempo que o consumiu e as lágrimas em seu rosto deformado pela dor revelam que algo em sua alma ainda clama por redenção.
Não conhecer outra forma de provar que está vivo do que suportar a dor, que é tão viciante quanto os remédios que toma para suportar o que foi desperdiçado.
Ah, velhos hábitos, quando nossas paixões viram nossa decadência? a partir de que ponto nossas escolhas viram nosso destino e não permitem mais outra saída senão o aceitar sereno e combalido de nossa fragilidade, mesmo que disfarçada de ousadia e tenacidade?
Existe um ponto onde não é mais possível voltar. Onde não é mais possível corrigir os erros. Sim, mas a única coisa que esperamos é que, estejamos de pé ou ajoelhados no final, seja por sabermos que chegamos até ali por nossa decisão, e que não há ninguém a culpar além de nós mesmos.
E que isso seja suficiente.
As marcas em seu corpo mostram o tempo que o consumiu e as lágrimas em seu rosto deformado pela dor revelam que algo em sua alma ainda clama por redenção.
Não conhecer outra forma de provar que está vivo do que suportar a dor, que é tão viciante quanto os remédios que toma para suportar o que foi desperdiçado.
Ah, velhos hábitos, quando nossas paixões viram nossa decadência? a partir de que ponto nossas escolhas viram nosso destino e não permitem mais outra saída senão o aceitar sereno e combalido de nossa fragilidade, mesmo que disfarçada de ousadia e tenacidade?
Existe um ponto onde não é mais possível voltar. Onde não é mais possível corrigir os erros. Sim, mas a única coisa que esperamos é que, estejamos de pé ou ajoelhados no final, seja por sabermos que chegamos até ali por nossa decisão, e que não há ninguém a culpar além de nós mesmos.
E que isso seja suficiente.
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